A importância de escolher o calçado certo para correr
Escolher umas sapatilhas de corrida pode parecer uma decisão simples, mas na verdade é um dos fatores mais importantes para desfrutar do running, melhorar o desempenho e reduzir o risco de lesões.
Muitos corredores, sobretudo quando estão a começar, escolhem o calçado com base no aspeto, na marca, no preço ou em recomendações genéricas. No entanto, o calçado ideal não é o mesmo para toda a gente: cada pessoa tem características diferentes que influenciam diretamente a escolha, como o tipo de pisada, o peso corporal, a experiência como corredor, a distância habitual de treino ou o piso em que corre.
Pela experiência numa loja especializada em running, é muito comum receber corredores que chegam depois de terem tido desconforto ou lesões, e em muitos casos a origem do problema está ligada a uma escolha inadequada do calçado. Por isso, escolher corretamente as sapatilhas não melhora apenas o conforto, pode também fazer toda a diferença na continuidade do treino.
Porque é tão importante escolher bem as sapatilhas
As sapatilhas de running são o principal ponto de contacto entre o corredor e o chão. Durante a corrida, cada passada pode gerar um impacto de duas a três vezes o peso corporal, o que cria uma carga repetitiva sobre articulações e musculatura.
Isto significa que um bom calçado deve cumprir várias funções em simultâneo:
- Amortecer o impacto.
- Proporcionar estabilidade.
- Favorecer uma pisada eficiente.
- Adaptar-se à biomecânica do corredor.
Por exemplo, um corredor que treina três vezes por semana pode acumular entre 15.000 e 25.000 impactos por pé. Se o calçado não for adequado, esse volume repetitivo pode aumentar o risco de sobrecargas musculares, dores nos joelhos, problemas no tendão de Aquiles ou fascite plantar.
Pelo contrário, acertar no calçado traduz-se em maior conforto durante os treinos, menor risco de lesões, uma corrida mais eficiente e uma melhor adaptação à progressão do treino.
O erro mais comum ao escolher sapatilhas
Um dos erros mais frequentes é escolher as mesmas sapatilhas que outro corredor usa. É habitual ouvir frases como "um amigo recomendou-me estas", "são as que um corredor profissional usa" ou "vi que são as mais populares".
Esta abordagem pode ser problemática, porque cada corredor tem características diferentes. Um corredor de 60 kg que treina a ritmos rápidos pode precisar de um calçado leve e reativo, enquanto um corredor de 85 kg que está a começar provavelmente precisa de mais amortecimento e estabilidade. Ambos os casos exigem sapatilhas distintas, mesmo que estejam a preparar a mesma distância.
É algo que se observa todos os dias em lojas especializadas: não existe a sapatilha perfeita, mas sim a sapatilha certa para cada corredor.
Fatores-chave para escolher o calçado ideal
Não existe uma fórmula universal para acertar nas sapatilhas, mas há vários fatores que convém sempre ter em conta: o tipo de pisada, o peso do corredor, a distância de treino e o tipo de superfície. Vamos analisá-los um a um.
Tipo de pisada: o ponto de partida
Um dos primeiros aspetos analisados na procura de sapatilhas é o tipo de pisada. Esta análise permite perceber como o pé contacta o chão e como se distribuem as cargas durante a corrida.
De um modo geral, distinguem-se três tipos principais:
- Pisada neutra.
- Sobrepronação (rotação excessiva para o interior).
- Supinação (apoio para o exterior).
Estes padrões influenciam diretamente o tipo de sapatilha recomendada. Em muitas lojas especializadas, a análise é feita numa passadeira, gravando o movimento a partir de diferentes ângulos para observar:
- O ângulo de apoio.
- A estabilidade do tornozelo.
- O alinhamento do joelho e da anca.
- O tipo de aterragem (calcanhar, médio-pé ou ante-pé).
Este processo permite recomendar modelos com maior estabilidade, amortecimento ou flexibilidade consoante as necessidades do corredor.

Peso do corredor: um fator determinante
O peso corporal influencia diretamente a quantidade de amortecimento necessária. Nem todos os corredores precisam do mesmo nível de proteção:
- Corredores leves → sapatilhas mais leves e reativas.
- Corredores mais pesados → maior amortecimento e estabilidade.
Como vimos, a força de impacto em cada passada é considerável. Quanto maior o peso corporal, maior a exigência para as articulações, e portanto mais importante se torna acertar no nível de amortecimento.
Distância e utilização das sapatilhas
Escolher sapatilhas para treinos diários não é o mesmo que escolher para competição, para longões ou para começar a correr. Cada utilização tem as suas prioridades:
Treino diário
- Maior amortecimento.
- Maior durabilidade.
- Mais conforto.
Competição
- Menor peso.
- Maior reatividade.
- Menor amortecimento.
Muitos corredores avançados utilizam até mais do que um par de sapatilhas, alternando consoante o tipo de sessão. Aliás, rodar entre dois modelos é um conselho cada vez mais habitual, especialmente entre quem prepara uma meia maratona, uma maratona ou inclui treinos de qualidade no seu plano.
Superfície onde corres
Outro aspeto fundamental é o tipo de superfície:
- Asfalto: amortecimento, conforto e durabilidade.
- Trail: aderência, estabilidade e proteção.
- Pista: leveza e reatividade.
Usar sapatilhas de asfalto na montanha, ou o contrário, pode reduzir a vida útil do calçado e aumentar o risco de desconforto ou escorregões.
O processo real numa loja especializada
Quando visitas uma loja especializada, o processo de aconselhamento segue normalmente vários passos:
- Entrevista inicial sobre os objetivos do corredor.
- Análise da pisada.
- Prova de diferentes modelos.
- Ajuste de tamanho e conforto.
Além disso, muitas lojas utilizam tecnologia de análise biomecânica que permite avaliar a distribuição do peso, o padrão de movimento e a eficiência da passada. Alguns sistemas analisam dezenas de métricas biomecânicas em poucos segundos para afinar a recomendação do calçado, o que confere maior precisão e confiança ao corredor.

Conselhos práticos da experiência em loja
Alguns conselhos a ter em conta:
- Não escolher só pela estética. O design não deve ser o fator principal.
- Experimentar sempre várias opções. Cada modelo transmite sensações diferentes.
- Deixar espaço na biqueira. Durante a corrida, o pé expande.
- Experimentar as sapatilhas ao fim da tarde. O pé costuma estar mais inchado.
- Não estrear sapatilhas no dia da corrida. É recomendável usá-las antes em treinos.
Estes pequenos detalhes podem fazer uma grande diferença no conforto e no desempenho.
De quanto em quanto tempo trocar de sapatilhas?
A vida útil média de umas sapatilhas de running situa-se entre os 500 e 800 quilómetros. No entanto, isto depende do peso do corredor, da superfície, do tipo de sapatilha e da frequência de utilização.
Alguns sinais de desgaste a que convém estar atento:
- Notas que o amortecimento já não responde como antes.
- A sola está visivelmente gasta ou lisa.
- Surgem desconfortos novos que não tinhas com as sapatilhas em bom estado.
Quando um ou mais destes sinais aparecem, é boa altura para pensar na troca.
Porque recomendamos um estudo biomecânico antes de escolheres as sapatilhas?
Antes de escolher o calçado ideal, vale a pena dar mais um passo e perceber como o nosso corpo se comporta durante a corrida. Cada corredor tem uma biomecânica diferente, e compreendê-la permite tomar decisões muito mais acertadas.
Um estudo biomecânico vai além da análise de pisada que mencionámos antes: avalia a cadência, a técnica de corrida, a oscilação vertical e possíveis desequilíbrios musculares ou articulares que, a longo prazo, podem resultar em desconforto ou sobrecargas. Aliás, dois corredores com o mesmo peso e nível podem precisar de sapatilhas completamente diferentes em função da sua forma de correr.
Na prática, muitos corredores chegam à loja depois de terem experimentado diferentes modelos sem sucesso. A análise biomecânica permite compreender melhor as suas necessidades reais e oferecer uma recomendação verdadeiramente personalizada. O objetivo não é apenas vender uma sapatilha, mas ajudar o corredor a encontrar o modelo que melhor se adapta à sua forma de correr.
Conclusão
Escolher o calçado ideal para correr não é apenas uma questão de marca ou estética. É uma decisão que merece tempo e que deve basear-se nas características do corredor, no tipo de treino, na superfície e na biomecânica individual.
A diferença entre uma sapatilha adequada e uma que não o é pode traduzir-se em maior conforto, melhor desempenho e menos idas ao fisioterapeuta.
Porque, no fundo, uma boa sapatilha não é a mais popular... é aquela que melhor se adapta a ti.